quinta-feira, 13 de julho de 2017

Das Luzes

Chamava-se Maria Conceição da Costa Pinto, filha de Dona Meme e Seu Lourival Antônio da Costa Pinto, seu Antônio Pinto. Naqueles tempos, em lugar de vento seco e chuva rara, homem tinha direito a nome e sobrenome, já para a mulher, o povo se contentava com apelidos. Ceça, Cecinha, Ceci, Cici. Devia ter seus nove anos quando descobriu histórias de sua cabeça entrando em páginas vazias. Maravilhou-se com a imensidão de lugares que conseguiria visitar apenas de lápis e sonhos nas mãos. Trocava s por z, x por ch, a noite pelo dia, o quarto pelo rio. Todo fim de tarde aguardava o sol cair, pintando as cores nas águas doces, contando peixes, ligando estrelas. Cici inventou reinados para aquela cidadezinha, decretou guerras, prendeu infratores. Fez chegar dragões antes mesmo da luz elétrica, ou até da coca-cola.
Mercedes Maria da Costa Pinto, esse era o nome que estampava a lápide. Foi a primeira vez que soube o nome de sua mãe, quando já nem podida questioná-la o porquê de Mercedes. A teria dito que esse era o nome de sua avó, e da sua bisa, e também da tia de sua bisa. Só não foi o seu porque Seu Antônio Pinto descobriu o passado de todas e proibiu, assim como proibiu Dona Meme a manter seu nome de solteira: Mercedes Soares da Luz. Por esses entardeceres, já tinha seus 17 e passou a assinar as crônicas publicadas no recém-jornal local como Maria Conceição da Luz. Decidiu carregar a história de suas mulheres, reescrever sua própria história. Acreditava em outros tempos, em diferentes rios e até no mar que nunca viu. Já doente, Seu Antônio Pinto prometeu não querer saber mais de sua filha, e nem de sua Luz. Não deu tempo de vê-la partir.
Não lembrava quantos anos tinham se passado desde a última vez que contou 37 peixes no rio, ou conseguiu desenhar uma sereia no mar escuro do céu. Não conseguiu conhecer todos os lugares descritos nos papéis da infância. Não viu o mar. ‘Não’ era a palavra que a acompanhava por toda a vida e, aos 87 anos, percebeu que Cici não tinha ido. Essa negativa talvez fosse a mais marcante no fim de seus dias. A menina do lugar de vento seco e chuva rara havia feito morada em peito já cansado. Não a deixou partir, e nem percebeu. Cici era também sua história, assim como da Luz, e a Mercedes que nunca e sempre foi. Pegou na cabeça todas aquelas histórias, o lápis, os sonhos raros na mão, sentiu o cheiro da água salgada. Não o via, mas sentia as ondas chegando aos pés. Deixou o lápis, papel e os sonhos irem, sabia que esse mar encontrava com seu rio em alguma curva errada. Uma curva perto de onde o entardecer chegava antes, onde o raio pintava a água, que já não se sabia doce ou salgada. Ali onde se enxergava melhor to-das Luzes do sol primeiro.


domingo, 24 de abril de 2016

Planetária

Sobre o espaço da infinitude ou das luzes que me falam mistério Sobre o sistema de cores ou dos nomes que não condizem Dos planetas largados no tempo só sei das verdades que não me dizes

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Tempo

Tempo de passo torto.

Desvia a saudade pra rumo errado.
Aguça no peito lembranças, amores. 
Tempo de riso solto. 
Afaga a mente, acolhe esperança.
Tempo de palavra em fogo
Queima aqui dentro, joga distante lembranças.
Chora sem temor, alarga o riso lá fora.
Tempo de tempo errado. 
Vem de sonhos, vem sem demora. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Saudade, bicho perigoso.

Saudade é bicho perigoso. Pega o tempo e dá um nó.
Aperta o coração e faz um rebuliço tremendo.
Toma conta dos sonhos, doa dia, do vento. 
Saudade não tem tamanho, nem medida, só conserto.
Atormenta a mente, maltrata o peito.
Mas assossega nos desejos, no vazio do silencio.
Saudade só tem perigo porque se alimenta do tempo

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Revoluções de uma terra com lei, mas sem dono.

São tantas insurreições aqui dentro. 
É até complicado afagar um sentimento. 
Pulso complicado, desvario. 
Terra com lei, mas sem dono. 
Do lado de fora, gritos estranhos. 
Por aqui, pétalas de sonhos.

São tantas insurreições aqui dentro. 
Deixa sonhar, deixa ser sonho.  

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Dê-me asas, que eu aprendo a amar. Obra para um coração solitário.

Descobriu um par de asas, desses tortos.
Lugar pior não havia de achar para ficar.
Logo no canto mais sem calma.
Mais desavisado e cheio de pulsações.

Não era fácil conviver dona de um coração alado.
Desses que não voam, mas aceleram os batimentos.
Balançam sem motivo, só por ouvir um suspiro.
Às vezes, até teimam em querer flutuar.
Mas não podem, são atravessados.

Todo dia sentia o arrepio do lado esquerdo.
Orquestra desafinada tocava por lá.
Complicado era segurar esse alvoroço.
Sentia que era maior do que o próprio peito.

Acontece que esses desvarios não duram para sempre.
Vem o tempo, sem medo e atropelando os sentimentos.
Leva aquela paixão, e deixa agora somente amor.
As asas enfim voam de fato.
E pousam em outro coração solitário.   

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do mar aos sonhos

E na bagunça do meu dia a dia,
me perco dos pensamentos,
não encontro palavras
Atiro em pedras, corto passagens 
Anseio versos, busco poemas
Discretos e sem nexo
Dou ao mar a razão
Mas esqueço das ondas

Melhor dormir, e descobrir o ruído dos sonhos.

domingo, 11 de novembro de 2012

Você no vazio

No vazio, o silêncio
Inundou as tristezas
Desfez a solidão
Combinou o que não podia
Vazio, silêncio
Tão cheios
De nada
Refez a solidão
Desfez
Enquanto você estiver perto do meu pensamento
Não irão faltar vazios falsos de infinitos
Vazios falsos de solidão
Vazios que por si só
Nos unem, como são. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Cantador

Quinta-feira, tempo nublado, dia esquisito. 
A tarde caia, e os primeiros gritos ecoavam. 
É um menino.
Alegria, telefonemas e lágrimas.
 
Tadeo nem era tão magro,
mas de gordinho não poderia ser chamado.
Sorridente isso sim. 
Custava largar aquele bocão escancarando a falta de dentes.
Sinal de canto de boca, meio preto, meio marrom. 
 
Agarrou-se logo aos seios da mãe.
Seis meses de leite materno foram suficientes.
Agora sim, gordinho por inteiro.  
Gengiva rosada e sempre à mostra, mas que não emitia nada.
"Nada, absolutamente nada!" Gritava a avó. 
 
Três passos e o chão.
Desequilíbrio para andar. 
Mas os dentes finalmente estavam lá. 
De voz não se sabia, uns ruídos, talvez.
 
No canto da boca, agora, uma grande mancha marrom.
Descobriu que para falar precisaria cantar.
Um passarinho sem penas. 
O cantador. 
 
Dia esquisito aquele.
Nem muito sol, nem muita chuva. 
Sorriso largo, dentes fartos.
Lágrimas muitas, resolveu partir. 
Adeus assobiado, cantado, não falado.
 
Tadeo era assim.
Ninguém nunca soube explicar.
"Aquele, isso, o gordinho que fala a cantar" 
Do que foi viver custou-se a saber.
Mas de lugar em lugar,
era um sorriso a ficar no seu andar.
 
Fora livre, como bem nascera para ser. 
Fora feliz, por livre conseguir ser.

sábado, 14 de julho de 2012

Sem demora

E era somente o que ele esperava. Dois em um. Um formando dois. A sintonia dos corpos ultrapassou o tempo. Tempo passado, tempo futuro. Só restou o presente. Eram dois, dois de um. Sem tempo. O vento sem pressa. O hoje, sem demora. Para sempre.

Vento de longe que traz o presente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A brisa

Eu quero um sopro de vento dentro de mim

Desses que deslizam fácil pela mente
Pelo corpo
Pelos dentes escancarados no sorriso
Andam rápido na alma viva
Alegre, em ritmo
E pelo ritmo
Alimentando os olhos
Tirando dos pés o peso do dia
Voando alto, baixo e para os lados
Na direção do tempo

Eu quero um sopro de vento dentro de mim
Uma paixão assim.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Canção da gente

Seria fácil transformar em canção aquilo que vem à mente
Sopra leve dentro da gente, sem medida, sem conserto
Aquela dor, só e simplesmente
Travestida de sonhos e desenhada em poemas
Curtas declarações
Breves decepções
A vida
Na sua mais longa caminhada
E bela, como não poderia deixar de ser
Música de pé de ouvido
Melodia que cabe no peito
E dói, dói sem receio
Dor de abraço forte
Traz a cançao da mente, do sonho, da gente
Leve e sem tamanho
Só e simplesmente.